Conversa antes da cirurgia: por que ela é tão importante quanto o procedimento em si

19 de maio de 2026
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Antes de qualquer cirurgia, há um momento que define muito do que vem depois: a conversa entre o médico e o paciente. Não a conversa burocrática de assinar papéis e confirmar horários, mas aquela em que se alinham expectativas, se explicam riscos e se constrói, juntos, um plano que faça sentido para aquela pessoa específica.

O que precisa ser dito antes de operar

O pré-operatório é o momento de organizar. Isso significa entender o que o paciente está esperando da cirurgia, alinhar essas expectativas com o que é realmente possível, identificar quais ajustes precisam ser feitos antes do procedimento e, quando necessário, solicitar exames complementares que ajudem a tomar decisões com mais segurança.

Mas vai além disso. Significa também ser honesto sobre os riscos. E os riscos variam de pessoa para pessoa. Uma cirurgia com determinado percentual de risco numa pessoa saudável pode ter um risco muito maior em alguém com décadas de tabagismo, diabetes de difícil controle ou outras condições preexistentes. Falar sobre isso com clareza, sem alarmar desnecessariamente, mas sem minimizar o que precisa ser dito, é parte essencial do cuidado.

A família também faz parte dessa equação. As expectativas que se formam ao redor de uma cirurgia não ficam só na cabeça do paciente. Quando todos os envolvidos entendem o que está sendo proposto, o que pode acontecer e o que se espera como resultado, a experiência inteira tende a ser menos difícil.

Cirurgias plásticas: um exemplo de risco subestimado

Um exemplo que ilustra bem os limites da avaliação pré-operatória convencional são as cirurgias plásticas, especialmente procedimentos como lipoaspiração e lipoescultura. À primeira vista, essas cirurgias parecem simples: são feitas em pacientes jovens, geralmente saudáveis, e os exames pré-operatórios muitas vezes não revelam nada que justifique preocupação.

Mas a realidade clínica é mais complexa. Esses procedimentos envolvem grandes volumes de líquidos, medicamentos em doses consideráveis, e duram muitas horas, às vezes quatro, cinco ou seis. São cirurgias que podem ser dolorosas e que carregam riscos reais, classificados de moderados a altos, mesmo em pacientes aparentemente sem comorbidades.

E aqui está um ponto importante: alguns exames laboratoriais de rotina, como os de coagulação, podem ter valor inferior ao de uma conversa bem conduzida e de um questionário de risco aplicado com atenção. A anamnese, quando feita com cuidado, detecta informações que nenhum exame é capaz de revelar.

Quando os exames não conseguem prever tudo

Mesmo com toda a preparação, algumas complicações simplesmente não podem ser antecipadas. A embolia gordurosa, por exemplo, ocorre quando partículas de gordura entram na circulação e chegam aos pulmões. É uma complicação que surge do ato cirúrgico em si, em pacientes jovens e sem histórico de risco, e que nenhum exame pré-operatório seria capaz de prever ou evitar.

O mesmo vale para a embolia pulmonar decorrente de coágulos que se formam ao longo de uma cirurgia prolongada. São eventos que estão dentro da estatística possível de qualquer procedimento cirúrgico e que, por mais rigoroso que seja o preparo, não podem ser eliminados por completo.

Reconhecer isso não significa aceitar o risco com passividade. Significa, ao contrário, preparar o paciente com honestidade, fazer tudo que está ao alcance para minimizar os riscos identificáveis e garantir que, se algo acontecer, a equipe esteja pronta para agir.

O pré-operatório como ato de cuidado

A preparação para uma cirurgia não é apenas técnica. É, acima de tudo, um ato de cuidado. Quando o paciente chega ao procedimento informado, com expectativas alinhadas e confiante na equipe que vai cuidar dele, a experiência muda. O pós-operatório tende a ser mais tranquilo, a recuperação mais colaborativa e os resultados, mais próximos do que foi prometido.

Essa conversa, feita com atenção e respeito, pode ser tão determinante quanto qualquer decisão técnica tomada dentro da sala de operação.



Este texto foi produzido com base em uma conversa do
Projeto Educa Dor, entre o Dr. João Rizzo e o Dr. Rodrigo Boldo e Cassiano Teixeira. O episódio completo está disponível em nosso canal no YouTube e também em formato de áudio nas principais plataformas de streaming.

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