Medicamentos antes da cirurgia: por que anotar tudo faz mais diferença do que parece

Quando um paciente se prepara para uma cirurgia, há uma preocupação que às vezes passa despercebida em meio a tantas outras orientações: o registro detalhado de tudo que ele usa. Parece simples, mas essa informação pode influenciar diretamente a segurança e a qualidade do cuidado no período perioperatório.
O valor de um registro claro e completo
A recomendação é prática: antes da cirurgia, o paciente deve anotar, em um caderno ou mesmo em uma folha, todos os medicamentos que usa, com os respectivos horários e doses. Manhã, tarde, noite. Quantos miligramas de cada um. O que foi suspenso e há quanto tempo.
Esse registro não é apenas para uso pessoal. Ele precisa chegar às mãos de todos os profissionais envolvidos no cuidado: o médico que faz o acompanhamento pré-operatório, o colega que vai cuidar no pós-operatório e, especialmente, o anestesista, que precisa saber exatamente o que o paciente está usando para tomar decisões seguras durante o procedimento.
Anticoagulantes, por exemplo, são medicamentos que normalmente precisam ser suspensos antes da cirurgia. Saber se isso foi feito, e há quantas horas, é uma informação clinicamente relevante. O mesmo vale para analgésicos de uso crônico, anti-hipertensivos e qualquer outro medicamento que faça parte da rotina do paciente.
Um problema real: medicamentos que o hospital não tem
Outro ponto importante diz respeito a um desafio prático dos ambientes hospitalares. Hoje existe uma variedade enorme de medicamentos de liberação prolongada e formulações especiais que simplesmente não estão disponíveis na farmácia de todos os hospitais. São medicamentos que fazem parte da rotina do paciente, mas que não figuram na lista de uso habitual da instituição.
Nesse caso, a orientação é que o próprio paciente leve o medicamento consigo, avisando a equipe que o usa e garantindo que isso esteja documentado. Não se trata de automedição; trata-se de continuidade do cuidado. A equipe precisa saber o que o paciente toma, em que dose e com que frequência, para integrar essa informação ao plano terapêutico.
Comunicação é parte do tratamento
O fio condutor de tudo isso é a comunicação. Quando há clareza sobre o que o paciente usa, quando parou, o que continua e o que mudou, a equipe consegue tomar decisões mais seguras e mais precisas. Quando essa informação está fragmentada ou ausente, surgem lacunas que podem comprometer desde o controle da dor até o manejo de condições clínicas preexistentes.
Orientar o paciente a se tornar guardião ativo das suas próprias informações é, nesse sentido, uma forma simples e eficaz de tornar o cuidado mais seguro. Um caderno com anotações claras pode parecer um detalhe pequeno. Na prática, ele pode ser uma das peças mais importantes em toda a preparação cirúrgica.
Este texto foi produzido com base em uma conversa do Projeto Educa Dor, entre o Dr. João Rizzo e o Dr. Rodrigo Boldo e Cassiano Teixeira. O episódio completo está disponível em nosso canal no YouTube e também em formato de áudio nas principais plataformas de streaming.



