Controle de dor no pós-operatório: as barreiras que ainda precisam ser superadas

Quando se fala em dificuldades no controle da dor depois de uma cirurgia de grande porte, é tentador olhar apenas para a complexidade clínica do caso. Mas muitos dos obstáculos mais relevantes são, na verdade, mais simples do que parecem, e estão dentro do próprio sistema de saúde.
O problema começa na prescrição
Uma das barreiras mais comuns no manejo da dor pós-operatória está num ponto que deveria ser básico: a forma como os analgésicos são prescritos. Com frequência, os medicamentos são indicados de maneira uniforme, sem levar em conta a intensidade da dor que o paciente está sentindo naquele momento.
Na prática, isso significa que um paciente com dor leve e outro com dor intensa podem receber o mesmo remédio, na mesma ordem, seguindo a mesma lógica: começa pelo mais seguro, independente do quanto a pessoa está sofrendo. O resultado é previsível: quem está com dor forte não recebe o tratamento adequado de imediato.
O que se espera, no mínimo, é que exista uma gradação clara na prescrição. Para dor leve, um analgésico simples. Para dor moderada, uma opção intermediária. Para dor intensa, um medicamento mais potente, como um opioide. Essa lógica escalonada não é sofisticada; ela é básica. E ainda assim nem sempre está presente nas prescrições do dia a dia.
Hospitais não estão preparados para tratar dor aguda
Outro obstáculo importante está na estrutura hospitalar em si. Pacientes com dor crônica, que já chegam ao hospital com um perfil de maior sensibilidade e ansiedade em relação à dor, frequentemente não recebem o cuidado diferenciado que seu quadro exige. Isso acontece porque, de forma geral, os hospitais ainda não estão adequadamente preparados para tratar dor aguda com a flexibilidade que ela demanda.
Um exemplo concreto: um paciente recebe uma dose de morfina e a próxima dose só está autorizada quatro horas depois. Se a dor retornar antes disso, nada pode ser feito, porque não há orientação na prescrição que permita uma dose menor e mais precoce para avaliar a resposta. O paciente fica com dor esperando o horário chegar, enquanto a equipe segue um ritual rígido que não foi pensado para ele.
Essa inflexibilidade no manejo não é descaso. É, muitas vezes, falta de orientação clara e de cultura institucional voltada para o controle ativo da dor.
As barreiras são nossas
É importante nomear isso com clareza: as principais barreiras no controle da dor pós-operatória são barreiras da equipe de saúde. Não apenas dos médicos, mas também dos enfermeiros e dos demais profissionais envolvidos no cuidado. Reconhecer isso não é uma crítica fácil; é uma condição necessária para mudar.
Parte do trabalho está em orientar o paciente de forma ativa. Um exemplo prático: o objetivo no pós-operatório é que o paciente se movimente, que saia da cama o quanto antes. Mas se ele está com dor, isso não vai acontecer. A solução não é ignorar a dor nem aceitar que ele fique imóvel; é garantir que ele tenha acesso ao medicamento necessário para conseguir se mover. A medicação, nesse contexto, não é um fim em si mesma; ela é o que permite que a recuperação aconteça.
Quando a equipe entende isso e age dessa forma, o cuidado muda de qualidade. O paciente se torna parceiro do processo, e não apenas alguém que espera a próxima dose no horário marcado.
Este texto foi produzido com base em uma conversa do Projeto Educa Dor, entre o Dr. João Rizzo e o Dr. Rodrigo Boldo e Cassiano Teixeira. O episódio completo está disponível em nosso canal no YouTube e também em formato de áudio nas principais plataformas de streaming.



