E aí? Como estamos?

18 de novembro de 2020
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Certa vez atendi um paciente jovem, em torno de 40 anos, com câncer terminal e muita dor, internado no hospital para controle de sintomas e conforto em sua fase final de vida, pela equipe médica. Foram “longos” 3 dias até acertarmos medicamentos e doses, que controlassem a dor e não aportassem novos sintomas limitantes, como náuseas, vômitos, sonolência excessiva ou delirium. Era um paciente cercado de afeto e amigos, sabedor de sua situação clínica, tentando encarar sua condição da forma mais digna possível. Todos os dias ía vê-lo e iniciava nossa conversa com a pergunta “E aí? Como estamos?”

Confira também em nosso blog: O que é a DOR?

Nos 20 dias que se seguiram ao meu primeiro contato com ele, empenhei-me em encurtar distâncias, aproximar-me, conhecer ao máximo possível a pessoa que enfrentava o final precoce da vida, com todas as limitações físicas que a finitude impõe. Minha meta, além da parte técnica no controle medicamentoso da dor, era fazer com que minha presença diária fosse um momento querido para o paciente, que ele sentisse satisfação com aquela visita, que fosse um momento de relaxamento e nunca de tensão e que os amigos e familiares sentissem o mesmo. Conversávamos muito além da medicina, tentei entrar em seu mundo, entender o que amava na vida, o que doía deixar e quem doía deixar… Havia dias melhores, outros bem piores, nos quais o silêncio era maior e  aprendemos que o corpo fala, que a presença é maior do que a palavra.

Dois dias antes de sua morte, entrei como de costume em seu quarto, fiz a mesma pergunta que sempre iniciava nossas conversas e fui surpreendido com outra pergunta e não a resposta rotineira: “E tu? Como tu tá te sentindo com tudo isso?” Em quase 25 anos vivendo os cuidados paliativos e o tratamento de dores das mais diversas causas, nunca um paciente havia se preocupado com o que eu estava vivendo em relação à doença, à perda ou à luta diária no controle de sintomas e na busca de conforto e dignidade para os nossos pacientes! Fui pego de surpresa, sim, mas não me esquivei da pergunta: respondi ,com sinceridade, sobre como a maneira com que os pacientes enfrentam o fim de suas vidas, como as perdas e limitações impostas pela doença ensinam-me a viver e energizam-me a seguir neste caminho, sempre buscando melhorar e entregar o máximo a quem precisa dos meus cuidados médicos. 

Admirável a capacidade do ser humano em doar-se estando, muitas vezes, em uma situação crítica, ter a capacidade de pensar no outro. Este é um dos sentidos da vida, se não O sentido da vida: o outro! Em medicina, na boa medicina, não deveria existir o “tu e eu” mas sim e sempre o “nós”. Além da empatia, a compaixão, indispensável para o conforto e a dignidade do paciente e de quem o trata. Por isso, sigo perguntando: “E aí? Como estamos?”

Texto por: Dr. João Marcos Rizzo – CREMERS 18903

Créditos da Imagem: Freepik

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O Projeto Educa Dor é uma ferramenta de informação em saúde, que busca levar de maneira clara, informações sobre os mais diversos conceitos envolvendo a dor crônica, seus tratamentos, métodos e diagnósticos.

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