Mais lesões significam mais dor na endometriose? Por que esse mito não se sustenta

Existe uma ideia bastante difundida de que a dor da endometriose funciona como uma régua: quanto mais lesões, pior a dor. É uma lógica intuitiva e, por isso mesmo, difícil de abandonar. Na prática clínica, porém, ela não se confirma. Entender por que isso acontece muda bastante a forma como a paciente encara o próprio diagnóstico.
De onde veio a ideia de estágios
Há muito tempo se tenta classificar a endometriose. A classificação mais conhecida divide a doença em quatro estágios, de leve a severa, com base na extensão das lesões encontradas.
Essa classificação foi criada originalmente pensando em reprodução, ou seja, para tentar prever o comportamento da doença em casos de infertilidade. Não funcionou bem para esse fim. Depois, tentou-se aplicá-la à dor. Também não funcionou.
O motivo é simples: uma escala baseada em quantidade e extensão de lesões só faria sentido se cada degrau correspondesse a uma intensidade previsível de sintomas. E não é isso que se observa.
O que a prática realmente mostra
É perfeitamente possível encontrar uma paciente com endometriose classificada como leve enfrentando uma dor mais difícil de tratar do que outra com a pelve tomada por lesões. E o contrário também acontece: mulheres com doença extensa que apresentam poucos sintomas, ou nenhum.
Ou seja, não existe relação direta entre número de lesões e dor. Essa é uma das informações mais importantes para quem acabou de receber um laudo e ficou assustada com a descrição do que foi encontrado. O laudo descreve a doença, não o sofrimento.
Uma classificação que ajuda mais
A forma de classificar que mais orienta o cuidado hoje não é a que conta lesões, e sim a que considera onde e como a doença se instala. Nesse sentido, a endometriose costuma ser dividida em superficial, ovariana e profunda.
A superficial corresponde aos focos que aparecem na superfície dos tecidos. A ovariana envolve a formação de cistos de endometriose no ovário. A profunda ocorre quando os focos invadem os tecidos, podendo atingir a bexiga, a região posterior da pelve, parte do intestino e, com menos frequência, outras estruturas.
Essa divisão é útil por dois motivos. Ela orienta o planejamento cirúrgico quando a cirurgia é necessária, e ajuda a entender quais exames conseguem identificar cada forma da doença.
Existe uma tendência de que pacientes com doença profunda tenham tratamento mais complexo e mais dor. Mas isso é uma tendência, não uma regra. Muitas mulheres com lesão profunda simplesmente não apresentam a tradução clínica que se esperaria.
Se não é a quantidade de lesões, o que explica a dor?
A dor da endometriose não vem de uma única fonte. Há um componente inflamatório local, que se renova a cada ciclo. Em alguns casos, há envolvimento de nervos. E há o fato de que uma dor intensa, repetida por anos, muda o modo como o sistema nervoso processa os sinais de dor.
Some a isso a frequente associação com dor de origem muscular na região pélvica, e fica claro por que duas mulheres com achados parecidos nos exames podem viver situações completamente diferentes.
O que isso muda no tratamento
A consequência mais prática é esta: tratar apenas as lesões nem sempre resolve a dor. É por isso que retirar ou cauterizar focos não garante, sozinho, o fim dos sintomas, e é por isso que o cuidado moderno combina o controle da doença com o tratamento específico da dor.
Para a paciente, essa informação tem um valor concreto. Se você tem doença classificada como leve e sente muita dor, você não está exagerando. E se você tem doença extensa e sente pouco, isso não significa que algo esteja errado com você.
Um laudo não define sua experiência
Existem achados que ficam muito bonitos em um gráfico de estudo e que não se traduzem na vida real. A relação entre extensão da doença e intensidade da dor é um desses casos. O que precisa guiar o tratamento é o que você sente e o quanto isso limita a sua vida, não a nota que a doença recebeu em uma escala.
Este texto foi produzido com base em uma conversa do Projeto Educa Dor, entre Dr. João Rizzo e Dr. Carlos Bastos de Souza. O episódio completo está disponível em nosso canal no YouTube e também em formato de áudio nas principais plataformas de streaming.



