Repouso absoluto até a dor passar: mito ou verdade?

Quando a dor aparece, o instinto natural é parar. Evitar o movimento, poupar a região machucada e esperar até que tudo volte ao normal antes de retomar a rotina. Faz sentido como reação imediata, mas será que ficar parado por tempo prolongado realmente ajuda na recuperação de uma tendinopatia? A resposta, segundo a literatura médica atual, é não.
Mito: repouso absoluto até a dor passar
A recomendação atual vai justamente na direção contrária da que era praticada no passado. Antigamente, era comum imobilizar o paciente com talas de gesso por períodos longos, de trinta a quarenta e cinco dias. Hoje, essa abordagem já não faz parte da prática recomendada. A tendência atual é manter o repouso pelo menor tempo possível, respeitando sempre a dor do paciente, e retomar o movimento de forma gradual já nos primeiros dias, conforme a tolerância de cada um.
Por que o movimento importa tanto
O movimento não é apenas tolerado durante a recuperação, ele é parte ativa dela. É através da movimentação que o tecido recebe a nutrição necessária para se reparar. Quando o repouso se prolonga além do necessário, em vez de ajudar, ele acaba favorecendo o surgimento de outros problemas.
“O movimento faz parte da recuperação, então tem que colocar para funcionar.” – Dr. Eduardo Malaquias
Os riscos de uma imobilização prolongada
A imobilização por tempo excessivo pode desencadear quadros bem mais complicados do que a lesão original. Um exemplo citado com frequência em consultório é o da síndrome de dor complexa regional, também conhecida pelo nome histórico de Sudeck, provocada justamente pela imobilização por longo período. Em fraturas consideradas estáveis, como certas fraturas na base do quinto metatarso, manter o paciente imobilizado até a consolidação aparecer claramente no raio X costuma ser desnecessário, já que a consolidação óssea, nesses casos, é avaliada de forma clínica, e o paciente pode voltar a apoiar o pé e caminhar assim que sentir condições para isso. Quando essa orientação não é seguida, o resultado pode ser osteoporose ou osteopenia por desuso, seguida de quadros de dor complexa e difícil de tratar, justamente pela falta de movimento.
Quando o repouso é, de fato, necessário
Isso não significa que o repouso nunca tenha lugar no tratamento. Lesões mais graves, como certas fraturas que exigem cirurgia, realmente demandam um período de cuidado maior. Mesmo nesses casos, porém, a tendência atual é retomar a movimentação o quanto antes, muitas vezes já no dia seguinte ao procedimento, sempre dentro do que for seguro para cada situação.
A reabilitação como parte central do tratamento
“Eu diria que a reabilitação física é a protagonista da tendinopatia.” – Dra. Francine Possebon Berlesi
Na prática, um dos maiores desafios não é convencer o paciente a repousar, mas sim convencê-lo a se movimentar. É comum chegar ao consultório um paciente com medo de se machucar mais, uma espécie de receio do próprio movimento, esperando por uma solução mais simples e imediata, como um remédio que resolva tudo sozinho. Às vezes esse paciente já está tomando, por conta própria, algum medicamento popular de venda livre com ação anti-inflamatória, e parte do trabalho do médico, nesses casos, é justamente orientar a redução desse uso e iniciar, de forma gradual e acompanhada, um programa de reabilitação física.
Em resumo
Repouso absoluto até a dor passar é mito. O caminho recomendado é o oposto: manter o repouso inicial o mais breve possível e devolver o movimento ao paciente assim que a dor permitir, já que é justamente esse movimento controlado que sustenta boa parte da recuperação de uma tendinopatia.
Este texto foi produzido com base em uma conversa do Projeto Educa Dor, entre o Dr. João Rizzo, o Dr. Eduardo Malaquias e a Dra. Francine Possebon Berlesi. O episódio completo está disponível em nosso canal no YouTube e também em formato de áudio nas principais plataformas de streaming.



