Gelo resolve o problema na tendinite? Mito ou verdade

Colocar gelo no local da dor é quase um reflexo automático para muita gente. Sentiu dor, pegou uma bolsa de gelo, aplicou na região e seguiu em frente. Mas será que esse hábito tão difundido realmente resolve o problema de uma tendinopatia, ou só disfarça o sintoma por um tempo?
Mito: o gelo resolve o problema
“Resolve é uma ilusão.” – Dra. Francine Possebon Berlesi
O gelo, de fato, traz algum alívio, principalmente na fase aguda de uma lesão. O frio reduz a temperatura local e altera o limiar de sensibilidade dos neurônios na região, o que gera uma sensação real de analgesia enquanto está sendo aplicado. O problema é que esse efeito é só isso: alívio temporário da dor. O gelo não interfere na cascata inflamatória necessária para que o tendão se regenere, e em alguns casos pode até reduzir um pouco uma inflamação aguda mais intensa, mas isso está longe de significar que o problema está sendo resolvido.
Acima de 24, 48 horas, o efeito muda
Existe uma diferença importante entre usar gelo logo após um trauma e usar gelo de forma prolongada num quadro de tendinopatia já instalado. Em traumas recentes, o gelo pode ajudar a evitar a formação de hematomas maiores, e como analgésico, costuma ter algum valor nas primeiras 24 horas. Passado esse período, o efeito praticamente desaparece, e o que era considerado benéfico no início deixa de fazer sentido como estratégia de tratamento.
Mais do que isso: o tendão precisa de um bom fluxo sanguíneo para se regenerar, e o gelo trabalha justamente na direção contrária a isso, reduzindo a circulação local quando aplicado.
O efeito colateral que poucos pacientes percebem
“O gelo é o inimigo da contratura.” – Dr. João Rizzo
Um padrão chama atenção em consultório: pacientes com tendinose que seguem usando gelo regularmente costumam apresentar mais dor muscular associada, do tipo miofascial, do que aqueles que não usam. A explicação está na relação entre o frio e a contratura muscular. Na hora da aplicação, o paciente até sente alívio e consegue se movimentar melhor, mas, depois, a dor pode voltar de forma mais intensa, afetando inclusive regiões maiores, como toda a cintura escapular, dos dois lados do corpo.
Esse comportamento não está restrito a pacientes mais velhos. É cada vez mais comum entre pacientes jovens, que buscam orientação na internet e acabam seguindo recomendações genéricas de aplicar gelo sempre que sentem dor, sem entender que, em quadros crônicos, isso pode acabar piorando o quadro em vez de ajudar.
Em resumo
O gelo não é vilão absoluto, ele pode ter seu papel como analgésico temporário, especialmente logo após um trauma. Mas tratá-lo como solução para uma tendinopatia é um equívoco. Em quadros de dor crônica, o uso repetido e prolongado pode até aumentar a contratura muscular e piorar o desconforto, em vez de favorecer a recuperação do tendão.
Este texto foi produzido com base em uma conversa do Projeto Educa Dor, entre o Dr. João Rizzo, o Dr. Eduardo Malaquias e a Dra. Francine Possebon Berlesi. O episódio completo está disponível em nosso canal no YouTube e também em formato de áudio nas principais plataformas de streaming.



