Tendinite é inflamação e precisa de anti-inflamatório? Mito ou verdade

Se o nome já tem “ite” no final, parece lógico pensar que o tratamento passa, obrigatoriamente, por um anti-inflamatório. Essa é uma das crenças mais comuns sobre tendinite, e também uma das que mais geram confusão quando o paciente descobre que nem sempre é assim que funciona na prática.
Mito: tendinite sempre precisa de anti-inflamatório
De forma geral, essa afirmação é considerada um mito. Existe, sim, um processo inflamatório envolvido, principalmente na fase inicial do quadro, mas isso não significa que o uso de anti-inflamatório seja indispensável para a recuperação. Esse é, inclusive, um ponto bastante controverso em quadros crônicos de tendinopatia, com estudos mostrando resultados parecidos entre o uso de um analgésico simples e o uso de anti-inflamatório para controle da dor.
“O anti-inflamatório não tem aquele papel protagonista como a gente achava que teria, só por ter o nome ‘ite’ nesse caso.” – Dra. Francine Possebon Berlesi
A fase do problema faz diferença
Em quadros agudos, como logo após um trauma ou uma lesão recente, o processo inflamatório costuma ser mais intenso, e existe um benefício teórico maior em utilizar um anti-inflamatório nesse momento. A história muda, porém, quando se trata de uma tendinopatia já crônica. Um paciente com um tendão lesionado há seis, oito meses, já não se encaixa no mesmo raciocínio, e o anti-inflamatório deixa de ter aquele papel central que muitas vezes se espera dele.
Por que a medicina regenerativa evita o anti-inflamatório
Na medicina regenerativa, existe uma preferência clara por não utilizar anti-inflamatórios no tratamento da tendinopatia, e a explicação tem a ver com o próprio papel biológico da inflamação. O processo de regeneração do tendão começa justamente a partir de uma resposta inflamatória, que funciona como um sinal para que o organismo desencadeie, de forma natural, uma cascata regenerativa, com liberação de substâncias que vão atuar no reparo do tecido.
Interferir nessa cascata, segundo essa linha de pensamento, pode acabar atrapalhando o próprio processo de cicatrização que se está tentando favorecer.
“Às vezes, na ânsia de melhorar o sintoma do paciente, a gente acaba atrapalhando.” – Dr. Eduardo Malaquias
Por esse motivo, a preferência, nesses casos, costuma recair sobre analgésicos para o controle da dor, evitando o anti-inflamatório sempre que possível. O uso de corticoide é visto com ainda mais cautela dentro dessa abordagem, já que ele interrompe de forma mais direta essa cascata inflamatória, considerada necessária para que a regeneração do tendão de fato aconteça.
O que isso significa na prática
A inflamação, nesse contexto, não é vista como vilã, mas como parte de um processo natural de sinalização e reparo do corpo. Isso não quer dizer que todo paciente deva, por conta própria, suspender ou evitar medicações, já que cada caso tem suas particularidades e o tratamento precisa ser individualizado e acompanhado por um médico. O ponto central é entender que o nome “tendinite” não obriga, automaticamente, o uso de anti-inflamatório, e que, em muitos casos, principalmente nos mais crônicos, outras abordagens podem fazer mais sentido para o processo de recuperação.
Este texto foi produzido com base em uma conversa do Projeto Educa Dor, entre o Dr. João Rizzo, o Dr. Eduardo Malaquias e a Dra. Francine Possebon Berlesi. O episódio completo está disponível em nosso canal no YouTube e também em formato de áudio nas principais plataformas de streaming.



