Dor pós-operatória: mitos e verdades que todo paciente deveria conhecer

Existem crenças sobre a dor depois de uma cirurgia que circulam há décadas, passadas de geração em geração como se fossem fatos. Algumas são inofensivas. Outras levam pacientes a sofrer mais do que precisariam. Separar o que é real do que é mito pode mudar a forma como alguém vive a própria recuperação.
“Quanto mais dor, melhor foi a cirurgia.” Mito.
A ideia de que a intensidade da dor reflete o quanto a cirurgia foi bem feita não tem qualquer respaldo científico. É verdade que qualquer procedimento cirúrgico provoca uma resposta inflamatória no organismo e que algum grau de desconforto é esperado. Mas relacionar a quantidade de dor com a qualidade ou o sucesso da cirurgia é uma associação sem fundamento. Dor intensa não é sinal de cura. É sinal de que o controle analgésico precisa ser melhorado.
“Remédio para dor vicia.” Mito, com nuances.
Alguns medicamentos, quando usados de forma inadequada, podem gerar dependência. Isso é real e não deve ser ignorado. Mas no contexto perioperatório, o objetivo é claro: aliviar a dor para que o paciente consiga se recuperar. Nas primeiras 48 horas após uma cirurgia, quando a necessidade de analgesia é mais intensa, o foco principal é garantir que a dor não impeça o paciente de caminhar, comer e retomar gradualmente suas atividades básicas. Usar medicação com essa finalidade, na dose correta e sob orientação médica, não é vício. É tratamento.
“Morfina é coisa de caso grave ou paciente com câncer.” Mito.
Essa associação é uma das que mais prejudicam o cuidado pós-operatório. Muitos pacientes ficam apreensivos ao saber que receberão morfina, como se isso indicasse que a situação é pior do que parece. Na prática, a morfina é considerada um dos melhores analgésicos disponíveis para o pós-operatório imediato, justamente porque atua de forma eficaz na dor aguda. Ela não é exclusiva de pacientes oncológicos, não é exagero médico e não indica gravidade. É simplesmente a ferramenta certa para o momento certo.
“Se doeu na primeira cirurgia, vai doer igual na próxima.” Mito.
A experiência de dor em uma cirurgia depende de inúmeras variáveis: o tipo de procedimento, a técnica utilizada, os medicamentos empregados, o esquema anestésico, o estado clínico do paciente naquele momento e a equipe que está acompanhando. Cada cirurgia é um evento diferente, e não há qualquer garantia de que a experiência anterior se repita. Supor que vai doer da mesma forma porque já doeu antes pode até criar uma expectativa negativa que interfere na percepção da dor.
Vale lembrar um dado interessante: em pesquisas realizadas com pacientes que nunca tinham passado por cirurgia, o maior temor relatado era sentir muita dor no pós-operatório. Já entre pacientes que haviam sido operados em hospitais com protocolo individualizado de controle da dor, a preocupação principal havia mudado: o que mais incomodava era náusea e vômito. Um detalhe que diz muito sobre o impacto de um bom manejo analgésico, e também sobre o quanto náusea e vômito pós-operatórios são subestimados, apesar de poder ser tão ou mais incômodos do que a própria dor.
“Não adianta reclamar de dor, é assim mesmo.” Mito, e dos mais prejudiciais.
Esse talvez seja o mito mais perigoso de todos. A dor pós-operatória mal controlada não é apenas desconfortável. Ela prejudica a recuperação, impede o paciente de se movimentar, atrasa o retorno às atividades normais e é um fator de risco reconhecido para o desenvolvimento de dor crônica. Aceitar a dor como algo inevitável e imutável é exatamente o oposto do que se recomenda.
O paciente deve, sim, reclamar. Deve comunicar à equipe quando está com dor, sem minimizar e sem esperar que alguém perceba sozinho. A dor é uma experiência subjetiva, individual e intransferível. Ninguém sente a dor do outro. E é justamente por isso que quem está sentindo precisa falar.
Este texto foi produzido com base em uma conversa do Projeto Educa Dor, entre o Dr. João Rizzo e o Dr. Rodrigo Boldo e Cassiano Teixeira. O episódio completo está disponível em nosso canal no YouTube e também em formato de áudio nas principais plataformas de streaming.



