Dor crônica após cirurgia: quem tem mais risco e por que o tratamento precisa ser individualizado

5 de maio de 2026
10420-1200x800.jpg

Nem toda dor que aparece depois de uma cirurgia desaparece com o tempo. Em alguns casos, o desconforto persiste além do esperado e se transforma em um problema que acompanha o paciente por meses ou até anos. Entender por que isso acontece, e quem está mais vulnerável, é o primeiro passo para prevenir.

Dois tipos de dor que precisam ser diferenciados

No contexto pós-operatório, existe uma distinção importante que nem sempre é clara para os pacientes. Há a dor aguda, aquela que surge naturalmente após a cirurgia e tende a ceder ao longo de dias ou poucas semanas. E há a dor crônica pós-operatória, que persiste além desse período e pode ter duas origens distintas.

A primeira é quando o paciente já convivia com dor crônica antes da cirurgia, e ela simplesmente continua depois. A segunda, talvez mais difícil de aceitar, é quando uma pessoa que não tinha qualquer queixa de dor anterior desenvolve um quadro crônico como consequência do próprio procedimento cirúrgico, muitas vezes por conta de uma lesão em estruturas nervosas durante a operação.

Quem tem mais risco de desenvolver dor crônica após cirurgia

Existem fatores de risco bem identificados, e reconhecê-los antes da cirurgia é fundamental para planejar um cuidado mais adequado.

Pacientes que já chegam ao procedimento com dor crônica ou com dor que foi mal tratada ao longo do tempo representam um grupo de maior vulnerabilidade. O mesmo vale para quem teve dor aguda mal controlada durante ou logo após a cirurgia. Mulheres e pacientes mais jovens também aparecem com maior frequência entre os que desenvolvem esse tipo de queixa persistente.

Outros fatores que aumentam o risco incluem a extensão do procedimento cirúrgico, a presença de condições psicológicas ou psiquiátricas como depressão e ansiedade, o tabagismo e a obesidade. Há ainda componentes genéticos identificados que influenciam a forma como cada pessoa percebe e responde à dor, embora não seja possível intervir diretamente sobre eles.

Esses pacientes exigem um manejo que vai muito além do que um único profissional pode oferecer sozinho no pós-operatório.

A analgesia multimodal e a importância de individualizar

Uma das abordagens centrais no tratamento da dor perioperatória é a chamada analgesia multimodal, que consiste em combinar diferentes tipos de medicamentos para obter um controle mais eficaz e com menos efeitos adversos. Essa combinação pode incluir desde analgésicos comuns até medicamentos utilizados originalmente para outras finalidades, como anticonvulsivantes e antidepressivos, que têm papel reconhecido no tratamento de certos tipos de dor.

Mas tão importante quanto a combinação de medicamentos é a individualização do tratamento. Cada paciente sente dor de uma forma diferente, responde de maneira distinta aos tratamentos e carrega um histórico clínico único. Ignorar essa individualidade e aplicar um protocolo genérico a todos é, na prática, subestimar a complexidade do problema.

É nesse ponto que o especialista em dor tem um papel fundamental, atuando em conjunto com o anestesista e os demais profissionais envolvidos no cuidado cirúrgico. Para pacientes com perfil de risco elevado, a avaliação e o planejamento precisam começar antes mesmo da cirurgia acontecer.

Por que tratar bem a dor desde o início faz diferença

A dor aguda mal tratada no período pós-operatório é, por si só, um fator de risco para a cronificação. Em outras palavras, quanto menos atenção se dá à dor nas primeiras etapas da recuperação, maior a chance de ela se instalar de forma duradoura.

Identificar precocemente os pacientes que estão em maior risco, personalizar o tratamento e garantir um acompanhamento próximo ao longo de todo o processo são medidas que fazem diferença real, tanto na qualidade da recuperação quanto na vida que o paciente vai levar depois que sair do hospital.



Este texto foi produzido com base em uma conversa do
Projeto Educa Dor, entre o Dr. João Rizzo e o Dr. Rodrigo Boldo e Cassiano Teixeira. O episódio completo está disponível em nosso canal no YouTube e também em formato de áudio nas principais plataformas de streaming.

Projeto Educador Logo Pequeno

O Projeto Educa Dor é uma ferramenta de informação em saúde, que busca levar de maneira clara, informações sobre os mais diversos conceitos envolvendo a dor crônica, seus tratamentos, métodos e diagnósticos.

Responsável técnico: Dr. João Marcos Rizzo - CREMERS 18903
Médico Anestesiologista com área de atuação em Dor - RQE 42946

Site por: marcelocezar.com