Medicina Perioperatória: o que é e por que ela faz diferença na recuperação cirúrgica

Quando alguém precisa passar por uma cirurgia, a atenção costuma se concentrar no momento do procedimento em si. Mas o que acontece antes e depois da sala de operação pode ser tão decisivo quanto a técnica cirúrgica. É exatamente aí que entra a medicina perioperatória — uma área que, apesar de ainda pouco conhecida no Brasil, já é considerada uma especialidade médica em países como a Inglaterra.
O que é medicina perioperatória?
A medicina perioperatória — também chamada de medicina operatória — é a área dedicada a acompanhar o paciente de forma contínua em todas as fases de um procedimento cirúrgico: antes da cirurgia, durante e depois. Não se trata apenas de liberar o paciente para operar. O objetivo é entender o estado clínico de cada pessoa, antecipar riscos, apoiar a equipe cirúrgica e garantir que os cuidados não se percam ao longo do caminho.
No Brasil, esse papel é desempenhado principalmente por médicos com formação em clínica médica ou medicina interna, além de cardiologistas e, em alguns casos, pneumologistas. Mas há uma diferença importante entre o que se pratica aqui e o modelo que esse campo propõe: no país, o que predomina ainda é a avaliação pré-operatória pontual — aquela consulta feita semanas antes da cirurgia, com um médico que muitas vezes não estará presente nas etapas seguintes.
O problema da fragmentação do cuidado
Esse modelo cria um problema real: a fragmentação. Um especialista avalia o paciente antes da cirurgia, outro acompanha o momento do procedimento, e um terceiro cuida do pós-operatório. Cada um tem seu olhar, sua ficha, seu contexto — mas ninguém carrega o fio condutor de toda a história clínica daquele paciente.
O resultado é que orientações importantes podem se perder, complicações que surgem durante ou logo após a cirurgia ficam sem o respaldo de quem conhecia bem o caso, e decisões precisam ser tomadas com informações incompletas. Estimar riscos percentuais antes da operação tem valor limitado se, na hora que o problema aparece, não há ninguém preparado para enfrentá-lo com profundidade.
Por que isso importa cada vez mais?
O cenário cirúrgico mudou muito nas últimas décadas. Hoje, procedimentos de grande porte são oferecidos a pacientes que, até pouco tempo atrás, não seriam candidatos à cirurgia — inclusive pessoas com câncer que passaram por quimioterapia, radioterapia ou imunoterapia antes da operação. Esses tratamentos prévios afetam a resposta do organismo, a cicatrização, a imunidade e a recuperação como um todo.
Operar esse perfil de paciente exige mais do que uma avaliação inicial. Exige continuidade, presença e um olhar clínico que acompanhe cada virada do processo.
Um cuidado mais completo, menos picotado
A proposta da medicina perioperatória é justamente costurar essas lacunas. Em vez de um cuidado dividido em etapas desconexas, a ideia é que exista um olhar clínico que percorra todas essas fases — preenchendo os espaços que, no modelo atual, ficam sem cobertura adequada.
Não se trata de substituir ninguém. Cirurgiões, anestesistas e demais especialistas continuam sendo fundamentais. O que muda é a presença de alguém que acompanha o paciente de forma horizontal, que conhece o contexto e está disponível quando as coisas se complicam — que é exatamente quando essa presença faz mais diferença.
Este texto foi produzido com base em uma conversa do Projeto Educa Dor, entre o Dr. João Rizzo e o Dr. Rodrigo Boldo e Cassiano Teixeira. O episódio completo está disponível em nosso canal no YouTube e também em formato de áudio nas principais plataformas de streaming.



